sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012


O ver e o conhecer em Aristóteles

12_08_800x600Quanto a Aristóteles, ele não só assume o nexo do “ver-conhecer” já presente no pensamento platônico, mas acrescenta-lhe uma nova importância.
O Estagirita toma a vista como metáfora para o conhecimento, situa o ato de ver entre as ações consideradas perfeitas, e por fim afirma:
“a vista é, de todos os nossos sentidos, o que nos faz adquirir a maior quantidade de conhecimentos e nos faz descobrir as maiores diferenças”.
Na Poética, o Estagirita sublinha o prazer (agapesis) que o sentido da visão nos proporciona:
 “Os seres humanos sentem prazer em olhar para as imagens que reproduzem objetos. A contemplação delas os instrui, e os induz a discorrer sobre cada uma…”.
Também no início da Metafísica, logo após enunciar sua célebre afirmação de que o ser humano possui um natural impulso para conhecer, declara que a principal prova desta asserção está no prazer que o homem sente em “ver” as coisas.
Sendo assim, é lícito supor que foi através desta valorização da vista como o sentido “mais teorético” que, ao longo da história, foram surgindo o conjunto de palavras em torno vocábulo “ver” relacionando-a com a natureza do conhecimento em geral, bem como com a origem da filosofia. Com efeito, esta equação entre o “ver” e o “conhecer” torna-se ainda mais clara, quando nos detemos numa análise acurada da etimologia de algumas palavras relacionadas com o conhecimento.
É sugestiva a gênese que dão à palavra teoria, fazendo-a derivar da raiz grega thea que significa ver, olhar atentamente. Desta mesma raiz se origina o nome Deus, que em grego se diz Theos, ou seja, “Aquele que vê”. Os filósofos gregos igualmente entendiam teoria como sinônima de contemplação.
Deste modo a vida contemplativa era, pois, chamada entre os gregos de vida teórica, por oposição à vida ativa, ou vida prática. O seu correspondente latino é o verbo speculari, que significa especulação. Este tem seu nascedouro na raiz indo-européia “spek” dando origem ao termo specio (ver, olhar, observar, perceber). Chauí, em seu estudo sobre a natureza do olhar considera a palavra idéia como tendo a mesma origem do vocábulo ver.
A filosofia entenderá a idéia (eidos) também com o no¬me de specie. Desta forma, a espécie sensível é a que possuímos através dos olhos do corpo. A espécie inteligível é entendida como aquela adquirida pelos olhos do espírito:“Idéia e espécie: uma só e mesma palavra usada para o corpo e a alma por que são capazes de ver e, portanto, de saber”.
O nexo entre o ver e o conhecer torna-se mais patente quando analisamos o seu uso na linguagem quotidiana. Por exemplo, quando queremos garantir que algo é verdadeiro dizemos que é evidente. Desta forma, imediatamente relacionamos a verdade com a perfeita visão das coisas.
 Denominamos de “investigação” a atividade do cientista e do detetive, sem nos atermos à gênese desta palavra que denota um olhar que espreita, que espia com o intuito de desentranhar o sentido de algo. Se alguém apresenta um determinado modo de compreender a realidade, afirmamos que este é seu “ponto de vista”.
Quando queremos que alguém mude de atitude, dizemos que é preciso que ele “reveja” seus atos. Quando queremos dizer que algo nos é sumamente precioso, dizemos que deve ser tratado como “a menina de nossos olhos”. Santo Agostinho, profundo conhecedor do pensamento platônico, estava atento a este fenômeno
De fato, ver é função própria dos olhos; mas muitas vezes nós usamos essa expressão mesmo quando se trata de outros sentidos, aplicados ao conhecimento. Nós não dizemos: “Ouve como isto brilha” – nem: “Sente como isso resplandece” – nem: “Apalpa como isto cintila”. – Para exprimir tudo isso dizemos “ver ou olhar”. E até não nos limitamos a dizer: “Olha que luz!”, pois apenas os olhos nos podem dar esta sensação – mas, dizemos ainda: “Olha que som! Olha que cheiro! Olha que gosto! Olha como é duro!” Por isso toda experiência que é obra dos sentidos é chamada, como disse, concupiscência dos olhos. Essa função da visão, que pertence aos olhos, é usurpada metaforicamente pelos outros sentidos, quando buscam conhecer alguma coisa. (Confissões, X, 35)
Como explicar então esta precedência dos olhos sobre os demais sentidos? Chauí nos oferece uma interpretação:“assim falamos porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque
o Almeida)
 os vemos e que os vemos porque existem. Somos, pois, espontaneamente realistas”.

(Ináci

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