sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012


AS “FILHAS” DA INVEJA

Pintura de São Tomás

No artigo terceiro São Tomás pergunta se a inveja é pecado mortal. Para o Angélico: “A inveja é genericamente pecado mortal” (Suma Teológica II- II q. 36, a. III) porque é contrária à virtude da caridade. O Aquinate explica que o gênero do pecado se deduz pelo seu objeto:
Ora, o objeto tanto da caridade como da inveja é o bem do próximo, mas por movimentos contrários; pois, a caridade se compraz com esse bem, ao passo que a inveja com ele se entristece, como do sobredito resulta. Por onde, é manifesto que a inveja é, genericamente, pecado mortal.
Entretanto, São Tomás (Suma Teológica II- II q. 36, a. III) recorda que cada gênero de pecado encerra certos movimentos imperfeitos da sensualidade que não são propriamente pecados mortais: “assim o gênero do adultério, os primeiros movimentos da concuspicência; e o homicídio, os primeiros da ira”. De acordo com Ayala (2008) trata-se dos chamados “primeiros movimentos” não consentidos e que, em geral, os teólogos não consideram como pecado por não serem eles atos humanos plenamente conscientes e livres. São Tomás afirma que “tal inveja não é pecado mortal. E semelhante é a natureza da inveja das crianças, que não têm uso da razão” (q. 36, a. III).
Em consonância com a doutrina tomista, pode-se concluir que a inveja em seu gênero é pecado mortal. Todavia, pela imperfeição do seu ato, pode vir a ser pecado venial.

 

2.3.4. Artigo IV- Se é vício capital e quais são as suas filhas

No artigo IV São Tomás pergunta se a inveja pode ser considerada como um vício capital. Ele responde remetendo às razões que havia dado na questão 35, artigo IV, para provar que a acídia é também vício capital.
Para São Tomás, tanto a acídia como a inveja consistem numa tristeza. A acídia é considerada um vício capital “por impelir o homem a fazer certas coisas para fugir à tristeza ou a satisfazê-la. Por onde, pela mesma razão, a inveja é considerada vício capital” (q. 36, a. IV).
Ayala (2008) afirma que, de acordo com a doutrina tomista, um vício capital é aquele que é o princípio de muitos outros pecados. Sendo assim, pode-se distinguir os vícios capitais e suas “filhas”, ou seja, os pecados que se originam a partir desse mesmo vício.
São Tomás, ao comentar um texto de São Gregório em que este enumera as filhas da inveja – a saber: murmuração, detração, ódio, exultação pela adversidade, aflição pela prosperidade -, ressalta uma interessante característica desse vício capital:
Na inveja há algo que exerce a função de princípio, algo que tem o papel de meio e algo que desempenhe o de fim. O princípio consiste em o invejoso diminuir a glória do outro; ocultamente, como é o caso da murmuração; ou manifestamente, como se dá com a detração. O meio consiste em que, visando diminuir a glória de outrem, ou o consegue e, então, tem lugar a exultação com as adversidades alheias, ou, não o consegue e então é o caso da aflição com a prosperidade alheia. Quanto ao termo, ele consiste no ódio; pois assim como o bem que deleita causa o amor, assim a tristeza causa o ódio, conforme dissemos (Suma Teológica II-II q. 36, a. IV).
O Angélico ressalta que embora a inveja não seja propriamente o mais grave dos pecados, todavia quando o demônio a sugere: “Induz o homem ao que lhe ocupava principalmente o coração. Pois como se diz no mesmo lugar, por via de consequência, por inveja do diabo entrou no mundo a morte” (Suma Teológica II-II q. 36, a. IV).
Entretanto, São Tomás afirma que há uma inveja que pode ser considerada como um dos mais graves pecados, pois se volta contra o Espírito Santo. Esse pecado é chamado de inveja da graça fraterna.
Royo Marín (1996, p. 262-263) explica que o Evangelho fala de certos pecados que não serão perdoados neste mundo nem no outro , são estes os pecados contra o Espírito Santo. O mesmo autor afirma que: “Os pecados contra o Espírito Santo são aqueles que se cometem com refinada malícia e desprezo formal dos dons sobrenaturais que nos afastariam diretamente do pecado. Chamam-se contra o Espírito Santo porque são como blasfêmias contra essa Divina Pessoa, a quem se atribui a nossa santificação”.
São Tomás (Suma Teológica II-II q. 36, a. IV) declara que essa inveja: “Nos leva a nos entristecermos com o aumento mesmo da graça de Deus e não só, com o bem do próximo. Por isso é considerada como pecado contra o Espírito Santo; porque por ela, o homem de certo modo inveja o Espírito Santo, glorificado nas suas obras”.
Por isso, Royo Marín (1996, p. 264) nos adverte sobre o grau de maldade que se encerra na natureza dessa falta, pois a inveja da graça fraterna:
É um dos pecados mais satânicos que se podem cometer, porque com ele “não somente se tem inveja e tristeza do bem do irmão, senão da graça de Deus, que cresce no mundo” (São Tomás). Entristecer-se da santificação do próximo é um pecado direto contra o Espírito Santo, que concede benignamente os dons interiores da graça para a remissão dos pecados e santificação das almas. É o pecado de Satanás, a quem dói a virtude e santidade dos justos.
(Inácio de Araújo Almeida

Nenhum comentário:

Postar um comentário