quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


A VIRGEM MARIA
NA FORMAÇÃO INTELECTUAL E ESPIRITUAL

A INVESTIGAÇÃO MARIOLÓGICA
23. Dos dados expostos na primeira parte desta Carta resulta que a mariologia está viva e empenhada em questões importantes no campo da doutrina e da pastoral. Portanto é necessário que ela, juntamente com a atenção aos problemas pastorais que pouco a pouco vão surgindo, se preocupe antes de tudo com o rigor da investigação, conduzida com critérios científicos.
24. Também para a mariologia vale a palavra do Concílio: « A sagrada teologia apoia-se, como em seu fundamento perene, na Palavra de Deus escrita e na Tradição, e nela se consolida firmamente e sem cessar se rejuvenesce, investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo ».[55] O estudo da sagrada Escritura deve ser portando como que a alma da mariologia.[56]
25. Além disso é imprescendível para a investigação mariológica o estudo da Tradição pois que, como ensina o Vaticano II, « a sagrada Tradição e a sagrada Escritura constituem um único sagrado depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja ».[57] O estudo da Tradição revela-se além disso particularmente fecundo pela quantidade e qualidade do património mariano dos Padres da Igreja e das diversas liturgias.
26. A investigação da Escritura e da Tradição, realizada segundo as metodologias mais fecunda e os mais válidos instrumentos da crítica, deve ser guiada pelo Magistério, porque a ele é que foi confiada a guarda e interpretação autêntica do depósito da Palavra de Deus; [58] e deverá ser, na ocasião, confortada e integrada pelas aquisições mais seguras da antropologia e das ciências humanas.
O ENSINO DA MARIOLOGIA
27. Considerada a importância da figura da Virgem na história da salvação e na vida do povo de Deus, e depois das indicações do Vaticano II e dos Sumos Pontífices, seria impensável que hoje o ensino da mariologia ficasse esquecido: é necessário portanto conceder-lhe o devido lugar nos seminários e nas faculdades teológicas.
28. Tal ensino, constituindo um "tratado sistemático" será:
a) orgânico, isto é, inserido adequadamente no plano de estudos do currículo teológico;
b) completo, de maneira que a pessoa da Virgem seja considerada em toda a história da salvação, isto é, na sua relação com Deus; com Cristo, Verbo Encarnado, salvador e mediador; com o Espírito Santo, santificador e dador de vida; com a Igreja, sacramento de salvação; com o homem, as suas origens e o seu progresso na vida da graça, o seu destino de glória;
c) correspondente aos vários tipos de instituição (centros de cultura religiosa, seminários, faculdades teológicas...) e ao nível dos estudantes: futuros sacerdotes e professores de mariologia, animadores da piedade mariana nas dioceses, formadores da vida religiosa, catequistas, conferencistas e todos os que desejam aprofundar o conhecimento mariano.
29. Um ensino ministrado desta maneira evitará apresentações unilaterais da figura e da missão de Maria, com prejuízo da visão de conjunto do seu mistério, e constituirá um estímulo para investigações aprofundadas através de seminários e elaborações de teses de licenciatura e de láurea sobre as fontes da Revelação e sobre os documentos do Magistério. Além disso os diferentes professores, numa correcta e fecunda visão interdisciplinar, poderão sublinhar no desenvolvimento do seu ensino as eventuais referências à Virgem.
30. É portanto necessário que cada centro de estudos teológicos — segundo a fisionomia própria preveja na Ratio studiorum o ensino da mariologia num modo definido e com as características acima enunciadas; e que, consequentemente, que os professores de mariologia tenham uma preparação adequada.
31. A este propósito convém acentuar que as Normas de aplicação da Sapientia christianaprevêem a licenciatura e a láurea em teologia com a especialização em mariologia.[59]
O CONTRIBUTO DA MARIOLOGIA PARA A PASTORAL E PARA A PIEDADE MARIANA
32. Como todas as disciplinas teológicas também a mariologia oferece um precioso contributo à pastoral. A este propósito a Marialis cultus sublinha que « a piedade à bem-aventurada Virgem, subordinada à piedade ao divino Salvador e em conexão com ela, tem um grande valor pastoral e constitui uma força inovadora dos costumes cristãos ».[60] Além disso ela é chamada a dar o seu contributo no vasto compo da evangelização.[61]
33. A investigação e o ensino da mariologia, e o seu serviço à pastoral tendem à promoção duma antêntica piedade mariana, que deve caracterizar a vida de todo o cristão e particularmente daqueles que se dedicam aos estudos teológicos e se preparam ao Sacerdócio.
A Congregação para a Educação Católica pretende chamar a atenção dum modo especial os Educadores dos Seminários da necessidade de suscitar uma autêntica piedade mariana nos seminaristas, isto é naqueles que serão um dia os principais responsáveis da pastoral da Igreja.
O Vaticano II, tratando da necessidade dos seminaristas terem uma profunda vida espiritual, recomenda que eles « amem e venerem com filial confiança a Santíssima Virgem, que foi dada como Mãe ao discípulo por Jesus Cristo moribundo na cruz ».[62]
Por seu lado esta Congregação, em conformidade com o pensamento do Concílio, sublinhou muitas vezes o valor da piedade mariana na formação dos alunos do seminário:
– na Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis pede ao seminarista que « ame ardentemente, segundo o espírito da Igreja, a Virgem Maria Mãe de Cristo, a Ele associada dum modo especial na obra da redenção »; [63]
– na « Carta circular sobre alguns aspectos mais urgentes da formação espiritual nos seminários » (6 de Janeiro de 1980) observa que « não há nada que possa introduzir melhor ... na alegria de crer, do que a verdadeira devoção à Virgem Maria, concebida como um esforço cada vez mais completo de imitação »;[64] e isto é muito importante para quem deverá fazer da própria vida um contínuo exercício de fé.
Código de Direito Canónico, tratando da formação dos candidatos ao Sacerdócio, recomenda o culto da bem-aventurada Virgem Maria, alimentado daqueles exercícios de piedade com os quais os alunos adquirem o espírito de oração e consolidam a vocação » [65] .

CONCLUSÃO
34. Com esta Carta a Congregação para a Educação Católica quere acentuar a necessidade de fornecer aos estudantes de todos os Centros de estudos eclesiásticos e aos seminaristas uma formação mariológica integral que abrace o estudo, o culto e a vida. Eles deverão:
a) adquirir um conhecimento completo e exacto da doutrina da Igreja sobre a Virgem Maria, que lhes consinta discernir a verdadeira da falsa devoção, e a autêntica doutrina das suas deformações por excesso ou por defeito; e sobretudo que lhes abra a via para contemplar e compreender a suprema beleza da gloriosa Mãe de Cristo;
b) alimentar um amor autêntico à Mãe do Salvador e Mãe dos homens, que se exprima em formas de veneração genuínas e se traduza na « imitação das suas virtudes » [66] e sobretudo num empenho decidido a viver segundo os mandamentos de Deus e a fazer a sua vontade (cf. Mt. 7, 21; Jo. 15, 14);
c) desenvolver a capacidade de comunicar tal amor com a palavra, os escritos, a vida, ao povo cristão, cuja piedade mariana se deve promover e cultivar.
35. Com efeito, duma formação mariológica adequada, na qual o elan da fé e o empenho do estudo se conjugam harmonicamente, derivarão numerosas vantagens:
–  no plano intelectual, porque a verdade acerca de Deus e do Homem, acerca de Cristo e da Igreja, vem aprofundada a exaltada pelo conhecimento da « verdade sobre Maria »;
–  no plano espiritual, porque tal formação ajuda o cristão a acolher e a introduzir « em todo o espaço da própria vida interior »,[67] a Mãe de Jesus;
–  no plano pastoral, para que o povo cristão sinta fortemente a Mãe do Senhor como uma presença de graça.
36. O estudo da mariologia tende, como sua meta última, à aquisição duma sólida espiritualidade mariana, aspecto essencial da espiritualidade cristã. No seu caminho para a obtenção da plena maturidade de Cristo (cf. Ef. 4, 13), o discípulo do Senhor, consciente da missão que Deus confiou à Virgem na história da salvação e na vida da Igreja, assume-a como "mãe e mestra de vida espiritual": [68] com ela e como ela, à luz da Encarnação e da Páscoa, imprima à própria existência uma orientação decisiva para Deus por Cristo no Espírito, para viver na Igreja a proposta radical da Boa Nova e, em particular, o mandamento do amor (cf. Jo. 15, 12).
Eminências, Excelências, Reverendos Reitores dos Seminários, Reverendos Presidentes e Decanos das facultades eclesiásticas, queremos esperar que as breves orientações acima indicadas tenham a recepção devida entre os professores e os estudantes para que se possam obter os frutos desejados.
Desejando às Vossas Pessoas a abundância das bênçãos divinas, nos subscrevemos, muito atentamente,
WILLIAM Cardinal BAUM Prefeito

ANTONIO M. JAVIERRE ORTAS Arcebispo tit. de Meta Secretário

Nenhum comentário:

Postar um comentário