sábado, 20 de agosto de 2011

A espiral hermenêutica da fé






A espiral hermenêutica da fé
4. A espiral hermenêutica da fé
A relação viva entre Escritura e Tradição mediatiza-se através de comunidades cristãs vivas e inculturadas, que realizam a tarefa do Círculo Hermenêutico, ou processo vivo de interpretação de fé. Três forças, como vértices de um triângulo, intervêm na realização desta tarefa. De um lado, a Palavra de Deus, lida no horizonte da Tradição. De outro, os apelos de Deus através dos Sinais dos Tempos. No outro extremo, o clima e as experiências no interior da própria comunidade.
O Círculo torna-se virtuoso quando existe sensibilidade à interpelação divina, a começar de qualquer vértice do triângulo, conduzindo a interpretações mais enriquecedoras dos dados da fé. Os elementos se condicionam mutuamente. Nova leitura da Palavra de Deus possibilita mais aguda sensibilidade aos Sinais dos Tempos, influenciando assim novas práticas pessoais, sociais e eclesiais. O movimento pode se iniciar por outro vértice. Por exemplo, experiências humanas significativas e a consciência delas decorrentes fertilizam enormemente a leitura da Palavra de Deus e provocam novas práticas eclesiais.
Quem já observou a espiral de uma mola de relógio deverá ter notado que se formam vários círculos, que vão se abrindo a partir do núcleo central. À medida que o movimento da espiral continua, parece voltar ao mesmo lugar, mas está num nível superior. A interpretação enriquecedora da Escritura é como uma espiral: acumula e produz sentido. Parece tocar os mesmos pontos, mas vai ampliando cada vez mais sua compreensão. Ao mesmo tempo, está referida ao ponto de origem da espiral, que é a revelação de Deus.
A absoluta novidade da interpelação de Deus, presente na vida, nos seus aspectos existenciais e sociais, intelectuais e práticos, faz a interpretação ser dinâmica e processual. Preferimos por isso falar em "espiral hermenêutica" em vez da clássica expressão "círculo hermenêutico".
Estamos habituados a dizer que "a Palavra de Deus ilumina a vida". O outro lado do movimento também é verdadeiro: a vida ilumina ou veda a compreensão da Bíblia.
A situação existencial de pessoas e grupos no interior da comunidade eclesial condiciona duplamente a leitura da Bíblia. Por um lado, elementos "negativos" ou "restritivos" tendem a obscurecer ou impedir a compreensão das interpelações de Deus, tanto na própria vida como na Bíblia.
Por exemplo: uma pessoa egoísta e fechada sobre si mesma terá sérias dificuldades em compreender a mensagem bíblica da partilha. Alguém que tem vida tranqüila e sem riscos com a sobrevivência não aceitará facilmente a preferência de Deus pelos pobres. Um adolescente de pai carrasco ou ausente tenderá a ter resistência quando ouve falar de “Deus Pai". Uma comunidade ou grupo de esquema mental rígido, muito moralista e escrupuloso, normalmente procurará os textos bíblicos de forte conteúdo apelativo e normativo que confirmem sua posição.
O mesmo acontece com os grandes condicionamentos sociais e culturais. Na cultura patriarcal, predomina a tendência de ler a Bíblia na ótica masculina. Numa sociedade de classes extremamente diferenciadas, os setores dominantes tendem a se apropriar da leitura da Bíblia para colocá-la a seu serviço. Muitas vezes, tais posturas e esquemas são inconscientes. Faz parte do pecado, tanto a nível pessoal como social, enganar-se e enganar aos outros. Também as estruturas eclesiais condicionam negativamente a leitura das Escrituras, seja "esquecendo" elementos centrais da fé e do seguimento, seja valorizando demais elementos secundários e até caducos. Isso pode acontecer na condução da liturgia, na administração dos sacramentos, na pregação, no espaço de participação concedido aos leigos, no Direito Canônico, na moral sexual, na interpretação da doutrina, especialmente dos dogmas etc. Se a Igreja se compreende como auto-suficiente, isolada do mundo e sem nada a aprender dele, as grandes perguntas provenientes da sociedade, que poderiam enriquecer enormemente a leitura da Bíblia e enriquecer a Tradição, ficam "do lado de fora".
A vida também traz condicionamentos positivos para a leitura da Palavra de Deus. Uma pessoa solidária com os outros encontrará na Escritura muitos elementos que a ajudarão na prática do amor.
Quem já passou por terríveis sofrimentos e perseguições, compreenderá com luz nova as reflexões de Jó e se deixará iluminar pelo mistério da cruz de Jesus. A crescente consciência do papel das mulheres na sociedade ajudará a fazer uma leitura não-patriarcal da Bíblia, na qual homens e mulheres, em reciprocidade, têm lugar e valor. A prática da luta pela justiça e por melhores condições de vida permitirá desentranhar e compreender com intensidade a experiência do (Êxodo, a opção de Jesus pelos empobrecidos e a repercussão social da fé.
Um sopro de renovação na Igreja, como foi o Vaticano II, dilatou enormemente as possibilidades e o "leque de leitura" da Escritura e da Tradição. Ao proclamar a necessidade do diálogo Igreja-mundo e a abertura aos Sinais dos Tempos (GS 1, 3,11), o Concílio abriu a porta para que elementos vindos de fora da comunidade eclesial tornassem mais fecunda à compreensão dos dados de fé.
A interação criativa entre o que chamamos "vida", "Bíblia" e Tradição acontecem devido ao Espírito Santo que age, de maneiras diversas, tanto no texto escrito quanto na existência humana. Através de cada instância, e especialmente na relação circular entre elas, Deus mesmo nos oferece seu amor, interpela a conversão e chama para realizar um projeto comum que tem a extensão da humanidade.
Fonte:
Da Mariologia Bíblica à Dogmát

In: Nova Aurora, 1995 - no 1, São Paulo
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Irmão Afonso Murad (marista).

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